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Barra de Punaú - por Arilza Soares
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domingo, 10 de junho de 2012

CASA DO CORDEL EM NATAL/RN - ONDE A ARTE E A CULTURA POPULAR FALAM MAIS ALTO!

             



A minha paixão pela literatura de cordel vem desde a minha infância. Desde cedo embarquei na viagem desses poetas populares. Aprendi com eles a me encantar os nossos costumes e as nossas crenças. Aprendi a  rir das historias narradas de forma tão peculiar, escritas por pessoas "não letradas" como  eram chamados pejorativamente esses poetas e escritores. E as ilustrações dos folhetos? Lindas! Ainda hoje sou fissurada em xilogravuras. Sempre que vou ao Nordeste  procuro me abastecer de folhetos de cordel, que na minha opinião é um retrato muito autêntico da poesia do nordestina.


Minha visita à Casa do Cordel em junho de 2012

Ter encontrado a Casa do Cordel foi portanto motivo de muita alegria, principalmente por saber que o Cordel ainda vive na minha cidade, e por vê-lo valorizado e divulgado. Essa postagem é a minha forma de agradecer ao Poeta Abaeté e ao seu filho Ericy pela brilhante iniciativa. Vida longa para a Casa do Cordel e para todos esses escritores e poetas populares do meu Nordeste que continuam nos presenteando com suas histórias fantásticas dos seus cordéis maravilhosos, onde a  imaginação e a arte são a obra prima.


Com o Poeta Abaeté, na casa do Cordel, em fevereiro de 2015





SOBRE A CASA DO CORDEL EM NATAL



                  
Quem acha então que cordel é coisa do passado precisa conhecer a Casa do Cordel em Natal/RN, fundada no dia 17 de agosto de 2007, por Erivaldo Leite de Lima, o poeta Abaeté. A casa funciona na Rua Vigário Bartolomeu no Centro da cidade, próximo ao Beco da Lama, região muito frequentada por boêmios e artistas potiguares. O local é o primeiro espaço cultural do Rio Grande do Norte totalmente destinado a valorização e divulgação dos artistas populares envolvidos nessa arte de contar histórias. 
No convite para a inauguração do espaço, com direito a sarau e café da manhã, se lia:




A Casa do Cordel não é apenas um ponto de venda de cordéis. É muito mais que isso! É um novo ponto de encontro da cultura popular, com propostas objetivas de promover encontros de cordelistas, realizar feiras, exposições, palestras, lançamentos de livros, tertúlias e saraus nos finais de tarde. O espaço está aberto para todos que se interessam pela cultura popular; a todos que quiserem enriquecer e se enriquecerem  culturalmente, numa troca que que aumenta a cada dia. "Quando a gente colocou a Casa do Cordel aqui muita gente começou a frequentar. Era uma novidade pois aqui e em nenhum outro canto do RN tem uma casa como essa, trabalhando e divulgando a cultura popular"- diz o poeta Abaeté.



                                             O poeta Abaeté e sua casa do Cordel


Abaeté do Cordel é poeta, cordelista, escritor e compositor. Natural de Sertânia, estado de Pernambuco, sertão de Moxotó morando no Rio Grande do Norte há mais de 20 anos.Se considera um "Pernampo" (Pernambuco- Potiguar). Os seus trabalhos se encontram espalhados em vários países como Portugal, França, Espanha e Estados Unidos.
Presidente da Associação de Cordelistas de Natal, Idealizador e organizador da Casa do Cordel, o poeta é autor de mais de 500 títulos de literatura de cordel, entre eles: " O casal que engatou no parque industrial" "Antologia do Peido"" O câncer Infantil" "4 Estrofes" "O Pássaro da Asa Quebrada"... Além disso possui um acervo muito grande de folhetos com versos de grandes nomes da literatura popular como Antônio Francisco, Crispiniano Neto, Paulo Varela, Bob Motta, Manoel Azevedo, e muitos outros.
Por sua intensa atuação em Natal, o poeta pernambucano, recebeu em 2014  o Título de Cidadão Natalense.






                                          Folhetos de Abaeté do Cordel

  


   A XILOGRAVURA NA CASA DO CORDEL






As paisagens do sertão nordestino misturadas aos elementos do imaginário popular, como lobisomens, sereias aladas, cavalos de fogo, são impressos com frequência nos livros de cordel a partir da técnica da xilogravura. A técnica milenar surgiu como recurso de reprodução de impressos e ganhou status de arte nas mãos de  grandes pintores europeus. No Nordeste a xilografia se popularizou e vem sendo preservada or grandes mestres, como o pernambucano J. Borges, considerado o maior gravador popular em atividade no Brasil.Em Natal o jovem potiguar o Erick Lima, produz gravuras para ilustrações de folhetos, livros, discos, camisetas, cerâmicas decorativas, além de trabalhos sob encomenda.


                                 Erick Lima - Xilógrafo da Casa do Cordel



Erick Lima começou a trabalhar com xilogravura em 2007.Desde a infância teve imerso nesse universo a cultura popular nordestina; seu pai, o pernambucano Erivaldo Leite de Lima, conhecido como Peta Abaeté, é um cordelista atuante no estado do Rio Grande do Norte. E foi para ilustrar as histórias de seu pai e de seus amigos que Erick fez as primeiras  maatrizaes em madeira. Além do trabalho no ateliê, ele também ministra oficinas em escolas, universidade, empresas ou oficinas individuais.


ALGUMAS XILOGRAVURAS DE ERICK LIMA






A ATUAL CASA DO CORDEL EM NATAL






Depois de sete anos funcionando no mesmo local na rua Vigário Bartolomeu, a Casa do Cordel mudou, em setembro de 2014, para um prédio próximo ao antigo endereço.
No novo espaço,um prédio de dois andares, funcionam a loja( no andar térreo)onde estão a venda,além dos cordeis, livros,quadros, artesanatos e objetos antigos como rádios, máquinas de costura e outras quinquilharias referentesa cultura popular nordestina. O andar superior, com aceeso pelo lado de fora da loja, é o local destinado para encontros, palestras, eventos e oficinas.



IMAGENS DA LOJA DA CASA DO CORDEL












IMAGENS DA ANTIGA CASA DO CORDEL









Fontes:
  1. Site da casa do Cordel - Blog -casadocordel.blogspot.com
  2. Jornal Tribuna do Norte Edição de 19/05/2010- Reportagem de Maria Betânia Monteiro-" Herdeiro da Xilogravura"
Fotos:

  • Imagens Google
  • Acervo de Arilza Soares
  • Edição de Fotos: Site Pic-Monkey






segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SEBO VERMELHO E ABIMAEL SILVA: DOIS LADOS DE UMA MESMA MOEDA VALORIZANDO A CULTURA POTIGUAR




A pequena porta pintada de vermelho com a tinta já descascada e um letreiro anunciando -"Sebo Vermelho", não chama a atenção de quem circula pela avenida Rio Branco, naquele trecho da cidade. Lá dentro um amontoado de livros empoeirados em meio a móveis e pilhas de papel. Mas o que chama mesmo a atenção de quem procura o sebo mais famoso da cidade é a figura amável de Abimael Silva o idealizador daquele espaço. Sentado em uma cadeira de madeira do tipo espreguiçadeira colocada bem a entrada da loja, ao lado uma antiga máquina de escrever  em  cima  um banquinho, e quase sempre acompanhado de um copo de cerveja, Abimael trabalha sério, absorto em seus apontamentos. Para quem não conhece o Sebo Vermelho, só ao entrar se percebe que é um sebo diferente, não só pelos tipos de livros lá encontrados mas pela forma como você é recebido ao se dirigir ao vendedor, no caso o próprio Ismael Silva.Como editor de centenas de livros, ele conhece e fala com desenvoltura sobre qualquer um deles. Ir ao Sebo Vermelho e bater um papo com Ismael é ter a melhor aula sobre a literatura do Rio Grande do Norte.


 


 O SEBISTA



O Sebo Vermelho surgiu em 1985 quando aos 21 anos, Abimael Silva resolveu abrir um  sebo de livros e discos após deixar a  instituição bancária, onde trabalhava.Para começar. colocou os livros de sua biblioteca particular para serem vendidos. Na época tinha mais de 700 livros e 600 foram colocados à venda. No início vendia mais discos, mas livros também vendia bem, tanto que costumava viajar para Recife,e comprar livros com preço defasado para vender no sebo. Atualmente o sebo vende apenas livros e conta com um acervo de aproximadamente 30.000 volumes. Desse total uns 10.000 são de autores Norte Rio- Grandenses.
O nome Sebo Vermelho foi escolhido de forma quase  circunstancial. É o próprio Abimael quem explica: "Tinha que ter um nome. Funcionava em uma cigarreira na Vigário Bartolomeu, quase em frente ao Banco do Nordeste, próximo à praça Padre João Maria. Natal tinha cigarreira amarela, azul, verde , branca... Só não tinha preto e vermelho. Se pintasse de preto, não daria certo por causa do calor. Resolvi pintar de vermelho, que é vida, sangue, energia e é a cor do amor. Até o dia que alguém chegou  e perguntou: aqui é o sebo vermelho? O nome acabou ficando".

 O EDITOR



A partir de 1990, Abimael passa a editar livros e tem empreendido um dos maiores e mais significativos esforços que já se fez pela literatura potiguar. Foi Écran Natalense, de Anchieta Fernandes, que trata de cinema em Natal, seu primeiro livro publicado  "Anchieta não encontrava espaço para publicar esse brilhante ensaio.Decidi procurar Varela Cavalcanti, então presidente dos Bancários, que sabia da importância da obra.Comprei todo material e ele topou fazer a impressão.Imprimimos 300 exemplares e felizmente conseguimos vender todos"  conta Abimael.
Nessas quase três décadas de existência a Editora Sebo Vermelho tem mais de mais de 300 títulos lançados, sem incentivos ou subsídios de qualquer espécie.Determinado e persistente esse guardião da cultura potiguar  quer chegar em 2013 com 500 livros editados.





As publicações do Sebo Vermelho tem feito importantes resgates de livros, como é o caso de "Antologia Poética do Rio Grande do Norte", publicado originalmente em 1922 e reeditado pelo selo em 1993. "Os Americanos em Natal", do historiador Lenine Pinto é outro destaque como também  o  "O Carteiro de Cascudinho", escrito por José Helmut Cândido, que foi  carteiro de Câmara Cascudo. No livro o carteiro conta suas experiências dos anos que passou servindo ao Mestre Cascudo. 
Entre os livros de História e Fotografias mais importantes lançados pela editora  estão " uma "Câmara vê Cascudo" com imagens raras do escritor, feitas nos finais dos anos 70, e "Natal Através dos Tempos" que retrata a cidade desde os anos 40, ambos do fotógrafo potiguar Carlos Lyra, falecido em 2006.Encontramos ainda "Cartas de Drummond a Zila Mamede" organizado por Graça Aquino, que reúne mais de 60 cartas de Drummond enviou para Zila. Esse é um dos livros que Abimael sente orgulho de ter publicado.



Dos livros mais vendidos com o selo da editora se destaca "História do Rio Grande do Norte" de Marlene da Silva Mariz e Luis Eduardo Brandão Suassuna.Outro que vende bastante é o livrinho de Celso da Silveira e José de Souza:" O Valor que o Peido Tem" - "esse livro causa um zumzumzum  danado, toda semana tem gente pedindo um exemplar" diz Abimael.
Todo livro editado pela Editora Sebo Vermelho passa a fazer parte da "Coleção João Nicodemos de Lima".O nome é uma homenagem ao primeiro sebista do Rio Grande do Norte. O sebo de João  Nicodemos ficava na Ribeira e funcionou por 43 anos ( 1932 a 1975).  

O CIDADÃO ABIMAEL


                                   Entrevista concedida ao Programa Cores e Nomes
                                                             Junho de 2010


José Abimael da Silva, nasceu na cidade de Várzea, mais precisamente no lugarejo conhecido como Tanque do Boi, no Agreste potiguar.De família numerosa, é um dos oito filhos de Maria Rodrigues da Silva, dona de casa e artesã  e de Severino Hercílio da Costa, carpinteiro. Aos cinco anos foi morar em Tibau do Sul e lá passou toda sua infância.Em 1970 veio estudar em Natal. Morou nas Rocas, Areal e depois nas Quintas. Estudou inicialmente no Isabel Gondim  e depois no Colégio João XXIII onde conheceu o professor Antenor Laurentino Ramos, segundo ele " Um brilhante professor de Lingua Portuguesa, Literatura e Francês". Antenor exerceu uma influência enorme na sua vida, sendo seu grande incentivador no que diz respeito a sua busca por esse mundo dos livros e das idéias literárias. Abimael não concluiu o segundo grau. Abandonou os estudos no terceiro ano.



Começou a trabalhar aos 12 anos vendendo confeito, trabalhou numa padaria e depois numa loja de discos até conseguir um emprego do Unibanco, onde permaneceu por quatro anos.Em 1986 foi demitido do Banco por participar da greve geral dos bancários, quando fez piquete na porta do Banco.Segundo ele mesmo conta, se sentiu muito aliviado com a demissão, pois não gostava do que fazia. A partir desse momento o sebo vermelho passou a fazer parte da sua vida...
Em 2003, aos quarenta anos de idade Abimael recebeu o título de Cidadão Natalense. No mesmo ano  participou do Programa de Jô Soares.Na época tinha editado o centésimo livro com o selo Sebo Vermelho.




Além de vender e editar livros, o Sebo Vermelho é um importante ponto de encontro dos intelectuais da cidade que frequentam o espaço  em busca de boa literatura ou simplesmente para uma boa conversa. Para os amigos o encontro virou tradição. E para os simples mortais que procuram o Sebo, Abimael não se cansa de mostrar o que existe de melhor na nossa literatura, com paciência e amabilidade. É muito bom ir ao Sebo Vermelho e conversar  com esse sebista, livreiro  e editor. Eu tive esse prazer.



FONTES:

  • Jornal Zona Sul de Natal- Entrevista concedida ao Jornalista Roberto Homem em Outubro de 2003
  • Publicações do Diário de Natal sobre o Sebo Vermelho.
VÍDEO

  • Entrevista dada ao programa Cores e Nomes - enviado ao You Tube por "coresenomes" em 25/06/2010

FOTOS

  • Imagens Google
  • Acervo pessoal de Arilza Pereira

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O FOLCLORE POTIGUAR ESTÁ DE LUTO - MORRE O GRANDE PESQUISADOR DEIFÍLO GURGEL


                                        Deífilo Gurgel na lente de Canindé Soares


O Rio Grande do Norte perdeu ontem um dos seus mais ilustres filhos, um grande representante da nossa Cultura. Com grande parte da sua vida dedicada  as pesquisas das tradições culturais do nosso povo, o Professor, Poeta, e Escritor, Deífilo Gurgel é considerado um dos maiores folcloristas do nosso país.
Natural do Município de Areia Branca, Deífilo Gurgel morava em Natal desde 1944 quando aqui chegou com 18 anos de idade. Aos 25 casou-se com Dona Zoraide, companheira de  sempre, com quem teve nove filhos. Sua paixão pelo folclore começou aos 44 anos. Relembrando sua história de vida disse:" Na minha infância, na minha terra, lá em Areia Branca, havia alguns grupos folclóricos, dos quais eu tive a oportunidade de assistir o Bumba meu Boi e o Pastoril. Então, eu só me interessava pelo divertimento e não imaginava que aquilo fosse tão importante".

O PROFESSOR DEÍFILO




Lecionou durante 12 anos.Segundo ele, não gostava de ser professor." Me empurraram para lá, como um boi vai para o matadouro. Mas foi ótimo porque, além das pesquisas de campo que eu realizava, eu tinha que estudar o assunto para transmitir aos meus alunos. Eu aproveitei a condição de professor para realizar uma importante pesquisa que durou 10 anos, de 1985 a 1995, denominada Romanceiro Potiguar. Com isso eu conheci todo o Rio Grande do Norte. Nela eu estudei os romances ibéricos, que vieram de Portugal para cá ,e os que foram criados no país. Eu descobri coisas que ninguém podia imaginar em uma pesquisa desse tipo."

O PESQUISADOR



Ao longo dos anos o Professor Deífilo promoveu importantes descobertas para o Folclore Nacional. Vários acontecimentos marcaram a vida desse pesquisador. O encontro com o embolador de coco, Chico Antônio "descoberto" por Mário de Andrade, na década de vinte, foi um desses momentos.




Outro grande momento foi a descoberta da maior romanceira do Brasil D.Militana, em São Gonçalo do Amarante. Antes de chegar até ela, o escritor conheceu seu pai, na década de 70, quando realizava pesquisas sobre danças folclóricas do Estado.



O convívio com Câmara Cascudo foi outro momento importante na vida de Deífilo." Eu toda vida fui muito inibido e tinha um relacionamento muito difícil com outras pessoas. Mas mesmo assim, eu convivi um tanto com Cascudo e ele era uma pessoa espetacular. Quando eu lecionei Folclore Brasileiro na Universidade, levei várias turmas para conversarem com ele e meus alunos saiam de lá deslumbrados."



BIBLIOGRAFIA

I - O POETA


  • Cais da Ausência
  • Os Dias e as Noites
  • 7 Sonetos do Rio e Outros Poemas
  • Os Bens Aventurados


II  - O FOLCLORISTA




  • Danças Folclóricas do Rio Grande do Norte
  • João Redondo - Teatros de bonecos do Nordeste
  • Romanceiro de Alcaçuz
  • Manual do boi Calemba
  • Espaço e tempo do Folclore Potiguar

Publicou ainda "Areia Branca - A Terra da Gente" - um ensaio sobre a sua cidade natal e "São Gonçalo - O País do Folclore" sobre as tradições culturais do município de São Gonçalo do Amarante.
Deífilo morreu sem ver publicada sua obra literária mais importante: O Romanceiro Potiguar,fruto de pesquisa de dez anos coletando romances medievais pelos rincões e sertões potiguares.O livro já editado pela Fundação José Augusto seria lançado após o carnaval.


SOBRE DEÍFILO GURGEL



"Eis o  mérito do Prof. Deífilo: buscou as  fontes primárias. Palmilhou os caminhos do Rio Grande do Norte de máquina fotográfica e gravador a tiracolo, ouvindo gente, batendo em portas e sentando-se nos terreiros das casas humildes para ouvir contarem os fragmentos desbotados da tradição popular".

               Iapery Araújo-Poeta e Membro da Academia 
                                                   Norte-Rio-Grandense de Letras


             DEÍFILO POR ELE MESMO



 Fragmentos de uma entrevista dada ao Jornal "O Poti" em 14/08/2011


Esse livro "O Romanceiro" será o seu  último?

- Penso na segunda edição do meu livro de poemas, acrescentando alguns inéditos. E também na segunda edição do Espaço e Tempo do Folclore Potiguar.De repente pela Fundação José Augusto.

E rotina? Faz  exercício?

- Faço exercícios no quarto mesmo, quando acordo: uns exercícios respiratórios, umas flexões nas pernas, nos braços. Inclusive tenho uma bursite no braço - ô nome  feio da p*...né? (risos).

E alimentação:conserva os hábitos interioranos?

- Nos tempos de jovem eu fazia compras naquele mercado da Cidade Alta que pegou fogo. Comprava carne de gado, umas costelas com dois dedos de gordura. Eu cortava  a gordura, parecia um queijo, aí eu comia pura.Isso me rendeu uma ponte de safena e duas mamárias.Mas foi há dez anos.Desde então nunca mais.Hoje como principalmente frutas.Tenho meus cinquenta e poucos quilos.Mas meu peso nunca passou de  70.

A velhice é mesmo a melhor idade?

- Fico admirado de estar vivíssimo aos  85 anos. Meu pai morreu com 64 com câncer no pâncreas. Minha mãe morreu com 77 de velhice. E do jeito que estou vivi e estribuchando, vou durar mais um bocado.(risos) São raros os da família com mais de 80. Só meu avô paterno que durou mais de 90 anos, mas era aquela vida no Sertão, né?

Quais foram os estresses?

- ( Olha para Carlos Gurgel à frente e ri) Foi desobediência. Esses danados ( os filhos)... eu falava o que era certo, mas insistiam em desobedecer. Mas cresci e evolui.Cansei de dizer o que era certo e errado. Não vim ao mundo para julgar mas para tentar entender meus semelhantes. Convencer o outro de que o melhor é o ABC ou América é besteira.

Qual a maior alegria na vida?

- Nem sei lhe dizer. Sou muito frio, sem muitas expansões pra essas coisas: nem para a alegria, nem para a tristeza. Quando meu pai faleceu, fui ao sepultamento em Mossoró. Os outros filhos choravam, mas eu não não sentia vontade. Com a minha mãe também. Mas quando descobri Zoraide pela primeira vez fiquei emocionado, admirando a beleza dela. As amigas diziam que ela era a mulher mais bonita da cidade .E eu, um provinciano que veio do oco do mundo, iria conquistar? Mas depois de muito assédio, conquistei a rainha.

E a maior decepção?

- Sou um cara que me acomodo muito com os percalços da vida. Mas o meu primeiro emprego veio quando passei em primeiro lugar entre 120 candidatos no concurso público para cargo de datilógrafo do Ipase. O gerente Jurandir Cerri, viu  meu interesse no serviço e fui promovido. Quando Getúlio Vargas foi deposto, o gerente eleito foi Eurico Dutra. Ele Esculhambou o Ipase, quando eu já era delegado lá, e me  substituiu por um contínuo do partido político dele. Eu nunca tive partido na vida. Aí fiz uma representação direta para o presidente Alcides Carneiro, da Paraíba. A resposta foi dez dias de suspensão. Não contei conversa e pedi demissão, depois de oito anos no Ipase. Depois fui ser caixa no Banespa, onde passei 17 anos. (nesse período Deífilo se forma em Direito, em 67) Mas lá também pedi para sair. Eu era meio doido nessa época. Eu me vi cinco meses desempregado, casado e com cinco filhos.

Foi quando a cultura o salvou?

- Eu morava em uma casinha humilde em Areia Preta. Estava sentado em um banquinho próximo à  Praia da Jangada conversando com Zoraide sobre a vida, e João Faustino me aparece dizendo que tinha sido nomeado pra Secretário de Cultura na administração de Ubiratan Galvão e me convidou para ser  diretor de promoções culturais, ganhando até mais. Não pensei duas vezes.

Como os trabalhos iniciaram?

Já era 1970. Djalma Maranhão havia sido deportado há oito anos. No governo dele aconteciam grandes festivais de folclore. Nunca me interessei. Quando fui a trabalhar com João,a mulher do governador Cortez Pereira, Aída Cortez, resolveu promover uma festa natalina com várias apresentações dos grupos tradicionais dos antigos festejos promovidos por Djalma. Chamei o senhor Joaquim Caldas Moreira, braço direito de Djalma naquela época, para arregimentar esses grupos. Quando vi a primeira apresentação, do Boi de Reis de São Gonçalo, veio o meu interesse. Me cerquei de uma biografia razoável e me aprofundei no estudo do folclore.

E a ligação com a poesia?

- Trazemos do berço. Em Areia Branca eram aquelas águas desaguando no oceano: uma paisagem muito plana. Eu já sentia alguns pluridos poéticos, mas pela pouca idade e falta de orientação, não me arrisquei. Quando eu ia de férias à casa do meu avô em Caraúbas, já com 10 ou 12 anos, ficava encantado com aquela natureza, aquelas serras .Eu ficava na calçada do meu avô olhando aquilo tudo. E lá não passava automóveis, só carros de boi, jumenteiras. E escrevia meus primeiros poemas: " Da esquina da rua do meu avô / eu via o trem de carga do Patu / que passava por trás do sítio de seu Joaquim Amâncio / lançando na calma tarde sertaneja / o seu apito longo e dolorido / e lançava no meu coração doente de menino / as primeiras sementes de poesia" Muita coisa da minha poesia, até hoje, são evocações de minha época de menino.


FONTES:
                      Jornal "O Poti" - natal RN
                      Jornal "Tribuna do Norte" - Natal-RN


FOTOS: 
                     Imagens Google
                     Edição de fotos: Programa Pic-Nic - Yahoo/BR

sábado, 21 de janeiro de 2012

PAPO LITERÁRIO - EDI GERMANO - ESCRITORA E POETISA POTIGUAR



Edineide Germano, ou Edi como costuma ser chamada, é uma velha e querida amiga da família desde  criança.Reencontrá-la depois de tanto tempo foi de uma  alegria e de uma emoção indescritível.O Facebook já havia nos aproximado, mas a relação virtual é fria e em nada se compara ao caloroso abraço nordestino, dado ao vivo , carregado de emoções.
Edi saiu de Natal ainda muito jovem, casada e foi morar  no Sul do país.Inicialmente em Florianópolis-SC, depois  mudou-de para a cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul,onde fixou residência,constituiu família e criou seus três filhos (Allan, karla e Raphael).Ali viveu até bem pouco tempo, quando uma fatalidade levou o seu filho Raphael,vítima de um mal súbito. A dor da perda do filho, e as constantes lembranças dele espalhadas pela casa em Santa Maria, a trouxe de volta a Natal.


Amante da natureza e do silêncio, Edi optou por morar numa chácara em Pium, um local paradisíaco cercado de mangabeiras e outras frutas silvestres, muitas flores e animais de estimação.Avó de três netos, Júlio e Sarah que vivem com a filha karla no Rio Grande do Sul e de Sebastian, filho de Allan, residente nos Estados Unidos; Ao lado do marido, Edi busca no contato com a natureza, a harmonia e tranquilidade que precisa para retomar a vida  e mergulhar com dedicação no seu mundo literário.
                             
A ESCRITORA




"O pensamento é uma inesgotável fonte de criação, onde o escritor encontra uma porta aberta de inspirações para a literatura, mergulhado nas suas próprias emoções de amor, de fé, felicidade, tristeza e dor, passando para a escrita o seu estado de espírito"   Edi Germano
                                       

Sua trajetória como escritora começou ainda em Santa Maria -RS, quando começou a escrever sua autobiografia.Com a morte do filho esse livro não chegou a ser concluído. Edi deixou de lado sua autobiografia para escrever um livro dedicado a seu filho,que eternizasse a sua memória.Assim  "O sonho Americano" conta a história de um estudante que deixa sua terra para tentar a vida no Eldorado Americano. A historia do jovem Raphael é real, mas a trajetória vivida pelo jovem estudante pode ser a história de tantos outros que se aventuram na América em busca de um sonho - O Sonho Americano!




A POETISA




"Escrever é transformar sentimento em realidade! Edi Germano
                                                                 

Em "Lilás - Uma Vida em Versos" Edi germano esbanja sensibilidade. Seus poemas  expressam suas emoções, sua filosofia de vida.Escreve sobre o amor,a tristeza, a alegria,a amizade, a morte, com o mesmo lirismo com que fala dos filhos, dos netos, da amizade, da sua origem.
O livro de Poemas Lilás da Edi além de nos proporcionar uma leitura agradável, tem um formato no mínimo curioso: O livro tem páginas em branco lindamente ilustrado com flores, uma das paixões da autora. A ideia do espaço, para a construção de um diário é, segundo a própria autora, o de despertar no leitor a veia literária. 

LILÁSEANDO



Árvore genealógica

Sou cria de matriz forte
Árvore de belo porte
Que de terras áridas produz
Flores, frutos, sol e luz!

Minha matriz tem raiz profunda
Atravessou estradas, divisas e continentes,
Soprando ao vento sementes,
Em margens de rios nascentes!

Sou cria de matriz valente
Sou espécie sobrevivente.
Da chuva, do rio do solo quente.
Sou como pássaro migrante,

Carrego sementes pra solos distantes! 





Pode Ser


Deixa-me embalar
 A fantasia possível
          O despertar de emoções
              O permanecer das paixões
                             Deixa-me falar o que nunca foi dito
     Os abraços desejados
      Dos sonhos roubados, 
       Dos corações sufocado
Deixa-me realizar
     Meus sonhos adiados
               Refazer caminhos cruzados
           Dos projetos inacabados
   Deixa-me despertar
A essência do ser
     A beleza do renascer
Deixa-me buscar
A alegria do meu
       Permanente pode ser!




Mandinga

Me cerquei de proteção
 Depois que li minha mão
   Tomei banho de sal grosso
Para fechar meu corpo
     Plantei espada de São Jorge
    Tentando uma melhor sorte
    Pra me livrar do quebranto
Mas a força do destino
Me manteve peregrino
A vida é uma cilada
Jogo de cartas marcadas
 Reza forte nem mandinga
Vai mudar a minha sina
Para a minha salvação
 Amor, quimera e paixão.



Vida Mutante 
                             
Do meu amor infante
Nasceu minha estrela  cativante
Tão linda e tão distante!
Do meu amor mutante
Veio o sol radiante
De coração viajante!
De uma noite apaixonante
Rasgando o céu em rasante
Nasceu o cometa brilhante
Da terra sigo pensante
Nessas estrelas distantes!




Minha vida em Versos 

De nada me vale paredes sem teto
Arar em terra seca
Semear no deserto
De nada me vale conquistar o descoberto
escutar sem nada ouvir
Acenar na escuridão
De nada me vale concordar com o absurdo
Aplaudir falso discurso
dar as mãos ao acaso
De nada me vale construir sem dividir
Ser humano sem sentir
A razão sem emoção
O amor sem perdão.






Amor  a terra Natal


Quero voltar a ver a imensidão do mar.
Olhar teu sorriso sincero, teu olhar apaixonado!
Quero voltar com você e caminhar,
Ouvir a voz do cantador
Sentindo o cheiro do mar!
Quero voltar me embalando,noite e dia
Com a brisa que acaricia os meus sonhos de menina!
Eu vou voltar pra sentir o teu calor
Me perder e me achar a caminho desse mar!
Eu vou voltar pra nunca mais te deixar
Me entregar ao teu olhar
Deixar o vento nos levar!
Quando eu voltar,vai sesem glórias, sem vitórias
Somente com nossas histórias
Gravadas na minha memória!



FONTE:


  " O Sonho Americano" Edi Germano
      Santa Maria - RS - 200
            "Lilás - Uma vida em Versos"Edi Germano
     Santa Maria -RS - 2008


FOTOS: 
Acervo de Edi Germano
Imagens Google