"O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido"
Clarice Lispector
A minha infância foi assim, cercada de dunas, de mar, e da maravilhosa vegetação da Mata Atlântica.Um verdadeiro paraíso para a meninada do lugar! Subir e descer os morros, andar pelas trilhas, colher as frutas da mata,ouvir o canto dos pássaros,era tão importante pra mim quanto ir à praia, ver a pesca do arrastão,catar conchas e pedrinhas, correr atrás da " maria farinha" mergulhar, ou pegar onda naquelas águas mornas do Oceano Atlântico.Tudo o que precisava pra ser feliz estava ali,na frente da minha casa,nos fundos do meu quintal! E mesmo com todas as regras e limites impostos pelos meus pais, e pela educação dada as meninas naquela época, eu aproveitei muito e vivi intensamente tudo que a natureza exuberante da minha cidade me oferecia.
- Lembro com carinho das caminhadas com meu avô pelos morros para colher lenha para o fogão. Andar por aquelas trilhas na mata, que ele conhecia tão bem, era fantástico, como fantásticas eram as histórias que ele contava para nos manter junto dele: histórias sinistras sobre a cobra cipó, a onça pintada e pior delas, sobre a existência do "morro do estrondo" com suas "areias movediças" provocadas pelos estrondos do morro..Quem se aventurasse a subi-lo morreria soterrado. O mais intrigante nessa história é que a gente ouvia estrondos ,o que nos levava a acreditar piamente no meu avô. Anos mais tarde descobri que, por trás daquele morro, tinha um centro de treinamento do exército, e que os estrondos eram tiros de verdade.
- E que aventura para se chegar no Farol de Mãe Luíza! O caminho era longo, cansativo, subindo e descendo morros, ou andando nas trilhas da mata fechada.Mas compensava! A natureza generosa, repleta de frutos, era uma atração a parte.Os animais da mata não nos amedrontava-bastava ficar atentos e respeitá-los que nada acontecia.E a chegada ao farol era uma festa; eu só precisava arranjar coragem para chegar ao seu topo,mas minhas as pernas fraquejavam só de olhar para as escadarias! Só consegui vencer esse desafio uma vez, levada pela mão do meu avô - uma experiência para mim, inesquecível!
- Não dá para falar os morros e esquecer de um deles que ficava na subida, onde hoje é a ladeira de Mãe Luíza-uma duna linda, cercada de vegetação que lembrava o Morro Careca de Ponta Negra.Eu gostava demais daquele morro e sempre que tinha oportunidade ia pra lá me juntar aos meninos da redondeza.Por causa disso levei muita bronca e fiquei de castigo muitas vezes-"isso é coisa de moleque" "menina que se preza não anda em pé de morro". De nada adiantavam essas reclamações, assim que eu podia, estava lá novamente, passando "sebo de carneiro" numa tábua para subir e escorregar no morro.Já brincava de "Skibunda" naquela época.
- Impossível esquecer o pé de maçaranduba, que ficava próximo a esse morro,mais ao lado, para ser mais precisa.No período da safra, senão me engano,no mês de janeiro, o pé ficava repleto de maçarandubas vermelhinhas, deliciosas. Eu comia com casca e tudo para não desperdiçar nada, e voltava para casa com a boca grudando, do leite pegajoso da fruta.Das frutinhas da mata, maçarandubas eram as minhas preferidas. Encontrá-las hoje é raro, o que é uma pena! A meninada nem sabe o que é maçaranduba, e deixa de saborear esse doce sabor de infância.
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