FOTO DE CAPA

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Barra de Punaú - por Arilza Soares

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

LENDAS DO FOLCLORE POTIGUAR: AS COBRAS DA LAGOA DE EXTREMOZ





Desde muito criança ouvia  histórias fantásticas ligadas as nossas lendas e mitos populares. Histórias de papa-figos, que saiam para comer o fígado das criancinhas, de almas penadas querendo rezas, de urros de onça pintadas prontas para atacar, de cobras gigantes, pescarias assombrosas... Morria de medo das histórias mas a minha curiosidade era maior e ficava ouvindo até o fim. Uma delas, porém, me aterrorizava: a história das duas cobras gigantes que saiam da Lagoa de Extremoz em busca da Igreja para serem batizadas, Essa história me assustou tanto que passei a ter pavor dessa lagoa, dela só não, qualquer lagoa pra mim era apavorante - temia me deparar com cobras se entrasse nelas.
Até hoje, quando passo pela bela Lagoa de Extremoz lembro da cobra gigante, que segundo a lenda, continua lá, inofensiva. É estranho porque, mesmo tendo consciência de que tudo não passa de lenda do imaginário fértil do nosso povo, nunca teria coragem de mergulhar naquela lagoa!




LAGOA DE EXTREMOZ - NATAL / RN



A lagoa de Extremoz - lagoa de água doce - localizada no município do mesmo nome, no estado do Rio Grande do Norte, ocupa uma área de 4.2 quilômetros quadrados, é responsável hoje, por 70% do abastecimento de água da região Norte da cidade de Natal.
A lagoa, que já se chamou lagoa Tijiru, teve um papel muito importante no processo de colonização do estado. Em torno dela, no local chamado Guagiru, habitavam os  índios tupis e tapuias. Em 1607, os jesuítas da Companhia de Jesus chegam à  localidade e recebem do Capitão-Mor Jerônimo de Albuquerque, cessão de terras para o trabalho de catequese com os índios, estabelecendo a missão de São Miguel do Guajiru.
Com a saída dos jesuítas, por volta de 1760 a aldeia passou a se chamar Vila Nova de Estremoz - a primeira Vila do Rio Grande do Norte.







Da época das missões, os nativos de Extremoz guardam muitas histórias e lendas. Entre outras importantes, como a Lenda do Tesouro, segundo a qual os próprios moradores destruíram a  antiga Igreja de São Miguel do Guagiru em busca de um tesouro enterrado, a lenda das Cobras da Lagoa  se constitui a mais viva tradição local, e continua, portanto, fazendo parte do imaginário coletivo do povo dessa cidade.


AS COBRAS DA LAGOA DE EXTREMOZ





"No tempo dos frades, a lagoa era povoada por duas cobras enormes. Uma, muito feroz e atrevida, devorava os banhistas e quem atravessasse a lagoa devia pedir proteção a São Miguel para não ser agarrado pela cobra. As crianças eram as vítimas preferidas pela cobra maligna. A outra cobra era mansa. Limitava-se a assobiar tristemente nas tardes em que seu companheiro nadava perseguindo os incautos.
Reza a lenda que essas cobras eram duas crianças pagãs que os  índios jogaram dentro da lagoa, a conselho dos "pajés"para que os padres não as batizassem. Viraram cobras e estavam cumprindo cumprindo penitência...





Num domingo, depois da missa, um padre missionário, veio até a margem da lagoa e, em nome de Deus, intimou as cobras a comparecer na igreja, naquela tarde, às horas da benção do Santíssimo Sacramento.
A cobra fêmea, tardinha, saiu da lagoa, arrastou-se, repelente e viscosa, para a vila, espavorindo quem a avistava. Atravessou a praça e enrolou todo o edifício da igreja com seu imenso corpo reluzente, juntando a cabeça e a cauda na soleira da porta principal.Do altar-mor, paramentado, o vigário admoestou-a à santa obediência e, erguendo a mão, abençoou-a. A cobra desenroscou-se, voltou, coleante e terrível, para as águas da lagoa.Nunca mais saiu nem fez mal. Vez por outra veem seu dorso negro, sobrenadando.





O companheiro, desobediente, não veio à igreja. O padre amaldiçoou-o da porta do templo, em voz alta e em latim.
A cobra excomungada nadou para o outro lado da lagoa, esgueirou-se  pelo mato e bufando como uma locomotiva, derrubando arbustos com o açoite furioso da cauda poderosa. No sítio Jardim, justamente no lugar "Embaíba". estirou-se e morreu. Nessa local, nunca mais nasceu capim e a estreita faixa de areia no meio da vegetação reproduz fielmente o contorno da serpente fantástica".
   (Câmara Cascudo - As cobras da lagoa de Estremoz - RN)




FONTES:
  • Luís da Câmara Cascudo - Geografia dos Mitos Brasileiros - Mitos secundários e locais -  Global Editora - São Paulo - 2002.
  • Pesquisas Google - Sites:
  1. www.rnhistoria.blogspot.com - HIstória do Rio Grande do Norte: Um pouco sobre Extremoz
  2. www.extremoz.rn.gov.br - Site oficial da Prefeitura de Estremoz - RN
  3. www.chaopotiguar.blogspot.com - Chão Potyguar - Estremoz

FOTOS:


  • Imagens Google
  • Edição de Fotos - Sites:
  1. Pic Monkey
  2. Screpee Net



5 comentários:

  1. Nunca me fizeram medo com histórias folclóricas, mas faziam ao meu primo e eu, só por ouvir, tremia as pernas todas kkk, aqui em Pernambuco se fala em "homem do saco" acho que é outra versão do papa-figo... As duas têm o mesmo objetivo: Manter as crianças quietas. Mas eu gostava mesmo era de ouvir minha mãe contando as histórias de interior. Sempre em um dia de domingo, com todos reunidos. Eita cultura linda essa nossa!

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  2. Neide,
    feliz da criança que teve seus pais, avós tios contadores de histórias, pq muito além de manter viva a nossa cultura cria um vínculo afetivo muito forte com ela, independente
    e dos "medos" que possam gerar.
    Eu tenho certeza que, se hoje valorizo e amo tudo o que vem da nossa cultura, foi na minha infância que tudo começou, com as históras contadas pelo meu avô paterno, e das histórias que li nos livrinhos de cordel no celeiro de cultura popular que era a casa da minha avó materna. Privilégio meu!

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  3. Nossa, eu já tomei banho nesta lagoa!!!!! Agora que conheci a lenda, quando voltar lá vou lembrar. Ai que medo!!!!!!

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  4. eu ja li muitas lendas mais esta foi a melhor que eu ja li!

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