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Barra de Punaú - por Arilza Soares

sábado, 22 de outubro de 2011

A SANHA HOLANDESA NO RN - II - O MASSACRE DE URUAÇU




Sobre o Povoado de Uruaçu
São Gonçalo do Amarante
                                    

O povoado surgiu por volta de 1609 e teve sua origem no arraial de Uruaçu, um sítio isolado e deserto, onde as pessoas da província se uniram em resistência aos flamengos (holandeses). Foi em Uruaçu que os moradores do engenho Potengi se reuniram para lutar contra os abusos da ocupação holandesa. Em virtude dessa resistência o arraial foi arrasado na manhã de 03 de outubro de 1645, no acontecimento histórico chamado “Massacre de Uruaçu”.






O local exato do segundo massacre de colonos no Rio Grande do Norte, o antigo porto de Uruaçu, ainda é uma incognita e motivo de controvérsias entre pesquisadores e historiadores. A dificuldade está no fato de que Uruaçu não tinha propriamente um local de moradia, como em Cunhaú. Era apenas um porto às margens do rio Potengi-Jundiaí, para quem ia ao engenho Potengi. Aponta-se que o  lugar do morticínio ficava a aproximadamente 1 km de distância do povoado e era denominado “Tinguijada”, área onde hoje abriga o Monumento dos Mártires de Uruaçu.
Tempos depois do massacre foi originado no local o povoado atual.

Sobre o Massacre de Uruaçu



Depois do massacre em Cunhaú alguns moradores influentes, liderados pelo padre Ambrósio Francisco Ferro, pediram abrigo no Castelo de Keulen. Os que não foram ao Castelo construíram uma paliçada para proteger  a localidade conhecida como Potengi. O número de moradores refugiados na paliçada é incerto. Para os cronistas portuguese eram 70 homens, mas documentos holandeses citam 232 pessoas.
As notícias de que uma marcha de índios, tapuias e potiguares, liderados por Jacob Rabbi se aproximavam, aumentava o terror dos colonos, que juntaram armas e mantimentos para resistirem a um possível ataque e cerco dos índios e holandeses. "Espantados com o que aconteceu em Cunhaú  alguns colonos "refugiaram-se nas margens do Rio Potengi, três léguas de Natal, erguendo uma defesa murada de madeira rústica" (Cascudo: 1955, p.83)


                            Cruzeiro no Santuário dos Mártires            


É provável que o próprio conselho holandês quem determinou o ataque ao Arraial do Potengi, para eliminar a resistência e evitar que um levante chegasse ao Rio Grande do Norte. Alguns cronistas  atribuem à vontade pessoal de Jacob Rabbi a ordem do ataque ao Arraial. Pesquisas em documentos holandeses e portugueses mostram que o cerco a paliçada do Potengi durou 16 dias. Foi iniciada em setembro pelo grupo de Jacob Rabbi e, depois, contou com reforços enviados pelo Castelo de Keulen, incluindo duas peças de artilharia. O bombardeio forçou a rendição dos luso-brasileiros.
Ocupada a paliçada do Potengi, os holandeses levaram cinco reféns para o Castelo de Keulen. Os demais colonos ficaram confinados na paliçada. No dia 2 de outubro uma lancha chegou ao castelo, com uma ordem do conselho holandês para executar os principais líderes dos colonos, desestimulando a revolta em terras do Rio Grande.


                           Capela de Uruaçu, erguida em 1921
                     Homenagem aos fiéis massacrados pelos holandeses



Não há comprovação dessa ordem, mas o fato é que no dia seguinte - 03 de outubro foram levados para Uruaçu: Antônio Vilela, Cid, seu filho, Antônio Vilela Júnior, João Lostau Navarro, Francisco de Bastos, José do Porto, Diogo Pereira, Estevão Machado de Miranda, Francisco Mendes Pereira, Vicente de Souza Pereira, João da Silveira, Simão Correia e o padre Ambrósio Francisco Ferro, que exercia as funções de vigário de Natal.- foram todos executados.
À morte deles, segue-se a chacina dos que estavam refugiados em Potengi, depois de terem sido retirados da paliçada e levados para o mesmo porto.


                                        
     
As atrocidades dessa chacina foi narrada por diversos cronistas da época. Exemplo disso é a carta de Lopo Curaro Garro de 1645. Segue trecho da carta, transcrito com adaptações ortográfica:
"Em particular aviso a Vossas  Senhorias do memorável sucesso do Rio Grande, depois de duas matanças que fizeram os tiranos Flamengos, acompanhados de bárbaros Tapuias e Potiguares e nesta derradeira ( a de Uruaçu) certo que é incrível a tirania, no qual servirá de exemplo(...) memória que haverá enquanto durar o dito; pois o sangue derramado de tantos inocentes clama aos Céus justiça e aos príncipes da terra favor, a tornar vingança de tais tiranos (...) Lançaram os prisioneiros fora do porto do dito rio, chamado Uruaçu (...)na qual achavam (...) duzentos brasilianos bem armados com Antônio Paraupaba escaramuçando em um cavalo, e tanto que estiveram em terra, os Flamengos despiram nus aos ditos moradores, e os mandaram por de joelhos ( o que eles receberam com muita paciência, e os olhos em Deus ) e logo nos corpos desses mártires, tais mutilações, que são incríveis; e não contentes com elas, os ditos Flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas (...)"

            
               Santuário do Mártires em Uruaçu


                                                  Comemoração Dia dos mártires
                                               Santuário de Uruaçu



  O Fim de Jacob Rabbi

                                      Cena do Filme " A nova Amsterdã"


                          Uma carreira marcada pelo ódio


Jacob Rabbi chegou ao Brasil junto com o conde João Maurício de Nassau-Siegen, em 23 de janeiro de 1637, desembarcnado no Recife. Em território brasileiro, a missão do alemão era de intérprete junto aos indios aliados, no meio dos quais passou a viver. Casou com uma índia janduí-a  Domingas e adotou alguns dos costumes indígenas. No comando das tropas de janduís e potiguares, e de aventureiros foi responsável por massacres e saques a engenhos entre nas capitanias do Rio Grande, Paraíba e Pernambuco.
Por conta da morte de João Lostau Navarro, em Uruaçu, Rabbi foi morto em emboscada na noite de 4 de abril de 1646. As investigações apontaram como mandante do crime o tenente-coronel Joris Garstman, genro de João Lostau. Garstman chegou a ser punido e enviado de volta à Holanda, mas acabou anistiado e voltou ao Brasil, permancendo até 1654. 



Fontes:
História do Rio Grande do Norte -  Luiz da Câmara Cascudo - 1984 -Ministério da Educação e Cultura-RJ
Diário do Rio Grande do Norte - Projeto Ler do Diário de Natal- 1999
História da Fortaleza da Barra do Rio Grande - Conselho Federal de Cultura/RJ
História do RN Colonial  - Luiz Eduardo Brandão Mariz e Marlene Silva -Editora Natal-1997-Natal /RN
Jornal Tribuna do Norte-Natal/RN - História do RN  Fascículo 4 - Os Massacres no Rio Grande do Norte
Fotos:
             Imagens Google
             Imagens do Site da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante





quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A SANHA HOLANDESA NO RN - I -O MASSACRE DE CUNHAÚ


                         Sobre o Domínio Holandês no RN


Em 12 de dezembro de 1633, após a tomada do Forte  iniciou-se  o domínio holandês no Rio Grande do Norte, seguindo-se até 1654. Os holandeses trocaram o nome de Fortaleza dos Reis Magos por Castelo de Keulen, e a cidade passou a ser chamada de Nova Amsterdã. Por ocasião do domínio holandês o nosso Estado foi governado por 3 capitães: Joris Garstman Bijles, Johans Blaenbeeck, Jan Denniger e um major: Bayert, todos eles flamengos.
Durante esse domínio holandês (1633-1654) aconteceram massacres sanguinários em Ferreiro Torto, Cunhaú, Uruaçu, Extremoz e Guaraíras, quase sempre praticados pelos índios aliados aos novos invasores.


                         O Castelo de Keulen na Nova Amsterdã 
                                           
Existe uma unanimidade entre os historiadores sobre o caráter violento e desnecessário dos massacres promovidos pelos holandeses, e seus aliados os índios janduís, na Capitania do Rio Grande do Norte. Esses massacres não constituem um caso isolado da colonização européia (ingleses, franceses, espanhóis, portugueses e holandeses), nas terras americanas. Os conquistadores não respeitavam nada. Os europeus se julgavam detentores da "civilização" nas terras incultas da América, agiram como se fossem verdadeiros bárbaros...
No Rio Grande, do Norte os flamengos resolveram eliminar duas coisas ao mesmo tempo: os portugueses e a religião católica. Os massacres ocorridos foram lutas do dominador para eliminar o povo subjugado.


O Engenho Cunhaú

                     Engenho Cunhau -Gravura do livro de Gaspar Barleus            


Segundo Câmara Cascudo, "o engenho Cunhau foi construído na sesmaria dada por Jerônimo de Albuquerque em 2 de maio de 1604 aos seus filhos Antônio e Matias. Constava de 500 quadradas na várzea de Cunhau e mais duas léguas em Canguaretama". No início do século, o engenho exportava açúcar para Recife. Possuía um fortim, sob o comando do capitão Álvaro Fragoso de Albuquerque. Foi construído por marinheiros de Dunquerque. Esse fortim foi atacado, vencido e destruído pelo coronel Artichofski, em outubro de 1634. Historiadores afirmam que esse engenho "era a menina dos olhos dos holandeses" por causa da fertilidade se suas terras"

                                                        O Massacre 

              "Quadro do Monsenhor Assis -Os Mártires de Cunhau"


Percorrendo a região canavieira entre Recife e Natal, Jacob Rabbi, alemão à serviço do governo holandês, e um grupo de indios janduís e potiguares, além de soldados holandeses, chegaram ao engenho Cunhaú em 15 de julho de 1645. Se apresentou como emissário do Supremo Conselho Holandês de Recife e convocou a população para uma reunião, após a missa do dia seguinte, um domingo, na capela de Nossa Senhora das Candeias. O domingo amanheceu chuvoso e nem todos os moradores compareceram à missa. Os historiadores estimam em 69 pessoas presentes no lugar. Durante a celebração, após a elevação da hóstia, os soldados holandeses trancaram todas as portas da igreja. A um sinal de Rabbi, os índios invadiram o local e chacinaram os colonos. O Padre André de Soveral, de 73 anos, que celebrava a missa, foi atacado por uma adaga e, depois de morto, feito em pedaços. O Padre André de Soveral é considerado um martir da Igreja Católica e foi Beatificado, junto com os mártires do massacre de Uruaçú.


 
                          Ruínas da Igreja de Nossa Senhora das Candeias
                                                    restaurada posteriormente


Relatos posteriores, alguns deles de emissários do governo holandês que investigaram o episódio, descrevem cenas de violência, atrocidades e certo requinte de crueldade contra os fiéis. Algumas pessoas se refugiaram na casa do engenho, mas tiveram um fim semelhante ao das que estavam na capela. Os flamengos e índios invadiram a casa. Houve certa resistência, três colonos conseguiram escapar pelo telhado, mas a superioridade numérica dos índios e dos holandeses acabou prevalecendo. Depois da chacina, o engenho foi saqueado.                                            
A notícia se espalhou, provocando revolta. Iniciando, pouco depois, a fase das represálias."Depois desse massacre, nunca mais os holandeses tiveram paz em Cunhaú,  Sucessivos atos de vingança foram realizados àquele engenho pelos portugueses". (Câmara Cascudo)

                   Capela de Nossa Senhora das Candeias


                                                 
                            
A capela de Nossa Senhora das Candeias foi reconstruída pela família Albuquerque Maranhão, após a expulsão dos holandeses, em 1645.                                           
Mais de três séculos separam a atual comunidade de Cunhaú dos dias de horrores devido a presença de índios bravios e invasores holandeses sob o comando do alemão Jacob Rabbí. Em 1634, quando os holandeses chegaram, Cunháu era o maior engenho em produção na capitania do Rio Grande. Pertencia a Antônio Albuquerque Maranhão.
O local que foi palco do martírio já não está intacto. A capela passou por várias reformas e, do tempo do morticínio, restam apenas os pilares da pequena Igreja. O engenho também está desativado. A população também diminuiu. Hoje, os moradores da fazenda Cunhaú se dedicam ao gado e a agricultura, plantam feijão e jerimum. No total, são oito famílias, cerca de 30 pessoas, que residem no antigo engenho.


                     Comemoração do dia dos Mártires em Cunhaú                           


Atualmente é grande o movimento de peregrinos para a capelinha. Diferente dos pontos já famosos de romarias, em outros estados brasileiros, em Cunhaú o comércio de lembrancinhas dos mártires ainda não se instalou nem despertou maiores interesses entre os moradores. Maria Barbosa Soares, que há três anos mora na fazenda, vende o livro "Terra de Mártires", escrito por Auricéia Antunes.


  
Fontes: 
                  

História do Rio Grande do Norte -  Luiz da Câmara Cascudo - 1984 -Ministério da Educação e Cultura-RJ
Diário do Rio Grande do Norte - Projeto Ler do Diário de Natal- 1999
História da Fortaleza da Barra do Rio Grande - Conselho Federal de Cultura/RJ
História do RN Colonial  - Luiz Eduardo Brandão Mariz e Marlene Silva -Editora Natal-1997-Natal /RN
Jornal Tribuna do Norte-Natal/RN - História do RN  Fascículo 4 - Os Massacres no Rio Grande do Norte


Fotos:
               Imagens Google
                     Acervo da Professora Elizete Arantes



terça-feira, 18 de outubro de 2011

FERIADO DE 03 DE OUTUBRO NO RN - DIA DOS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

                              Pe. André Soveral -Pe. Ambrósio Francisco Ferro
                                           Mateus Moreira (no primeiro plano)


Dia 3 de outubro é feriado no Rio Grande do Norte. O feriado estadual é uma homenagem aos mortos durante dois  massacres, ocorridos em 1645: um na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no engenho Cunhaú, no município de Canguaretama, e o outro na Comunidade Uruaçu  em São Gonçalo do Amarante.



                              Pe. André Soveral -Pe. Ambrósio Francisco Ferro
                                                   Mateus Moreira (no alto)


Em maio de 2000, o Papa João Paulo II Beatificou os Mártires de Cunhaú e Uruaçu como exemplos de fé cristã e defensores da igreja Católica. Nesse mesmo ano, o Governo do Estado,em resposta à uma solicitação da Arquidiocese de Natal decretou o feriado de 3 de outubro.
A lei que originou o feriado no Estado é de autoria do deputado José Dias. Aprovada pela Assembléia Legislativa e promulgada pela então governadora Vilma de Faria, foi publicada no Diário Oficial do Estado no dia 7 de dezembro de 2006.


                  Capela de Cunhaú - Santuário dos Mártires em Uruaçu                       
                                  
A Beatificação dos Mártires

Para que o processo de beatificação fosse aprovado, a Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano, exigiu provas que teriam que atender a três requisitos

1.Que as mortes tenham sido de forma violentas
    2.Que os motivos tenham sido de ódio à fé católica
                 3.Que as vítimas tenham aceito livremente o sacrifício                       

Coube ao Monsenhor Francisco de Assis Pereira, postulador da causa da beatificação dos mártires, o desafio de provar que essas circunstâncias fizeram parte do episódio de Cunhaú e Uruaçu.
Monsenhor Assis acompanhou o processo por mais de dez anos, reunindo documentos em pesquisas realizadas em Portugal, Holanda e no Brasil. Deste material resultou o livro Protomátires do Brasil, de sua autoria. As provas reunidas pelo Monsenhor  são explicadas a partir da análise de cada massacre:

1. O Caso do Massacre de Cunhaú


                                                   Padre Andre de Soveral  
            Capela de Nossa Senhora das Candeias (depois da restauração)

"No caso de Cunhaú a violência foi caracterizada pelo fato do grupo de fiéis ter sido chacinado em um recinto fechado, dentro da capela, sem possibilidades de fuga. Além disso, o ataque foi de surpresa e a traição, desfechado de forma repentina por índios selvagens e soldados holandeses armados.
O cenário onde se deu o massacre, o interior da capela, prova o ódio a fé católica. Um a um, portugueses e colonos foram retalhados por espadas afiadas. O Padre André de Soveral, de 73 anos, que celebrava a missa, foi atacado por uma adaga e, depois de morto, feito em pedaços.
Em uma situação de respeito à religião e a fé, a capela de Nossa Senhora das Candeias teria que ter sido considerada um lugar inviolável e sagrado. 
O terceiro elemento que comprova o martírio na capela Nossa Senhora das Candeias é a aceitação voluntária da morte.Os fiéis não reagiram de forma violenta e, mesmo depois, não houve vingança, concordando com o sacrifício da vida". 




                                                        
   2. No Caso do Massacre de Uruaçu                        
                                                    
                                                     

"Em Uruaçu, a morte violenta está explícita no momento em que as pessoas foram atacadas por 200 soldados bem armados. O segundo critério para a declaração do martírio é morrer pela fé. Os historiadores mostram que as vitimas de Uruaçu morreram testemunhando a fé em Deus e na Igreja Católica.E,por morrerem por Deus, eles aceitaram livremente o massacre." 
O massacre é descrito pelos cronistas portugueses com impressionante realismo."Começaram a dar tão desumanos e atrozes tormentos aos homens que já muitos dos que padeciam tomavam por mercê a morte. Mas os holandeses usaram da última crueldade entregando-os aos tapuias e potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram anatomias incríveis, arrancando a uns os olhos, tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas e metendo-lhas na bocas"( Santiago) O Padre Ambrósio, ainda vivo, foi muito torturado, mas é a descrição da morte de Mateus Moreira o ponto mais expressivo de toda narrativa de Uruaçu e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na hora do martírio. Os algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas e ele morreu exclamando:" Louvado seja o Santíssimo Sacramento"


Padre Ambrósio

Mateus Moreira

                           
                     Santuário dos Mártires em Uruaçu 
                                       


Para o Monsenhor Francisco de Assis "a memória dos servos de Deus sacrificados em Cunhaú e Uruaçu, em 1645, permaneceu na alma viva do povo potiguar, que os venera como autênticos defensores da fé católica."
O processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé, e no dia 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo 2 sacerdotes e 28 leigos.
O processo dos mártires encontra-se agora rumo a canonização, que se concretizada,dará ao Brasil seus primeiros Santos Mártires brasileiros.


 Santuário dos Mártires
Bairro de Nazaré - Natal / RN





Nota Final


A decisão do governo estadual em decretar feriado no Rio Grande do Norte por causa da Beatificação dos Mártires, causou polêmica. Os motivos para a beatificação não são consenso entre historiadores. Alguns acham que a igreja se aproveitou do episódio histórico, explorando-o pelo lado místico, como também a fé incomensurável dos fiéis. O Catolicismo teria deixado a questão histórica em segundo plano,modificando-a e construindo uma versão do seu interesse.Outros questionam o massacre, e dizem que existem outras interpretações.Não se questionou, por exemplo, quem seriam as verdadeiras vítimas desse processo: os índios e holandeses não puderam dar seu testemunho, e se sabe que os colonos portugueses também realizavam massacres. Para esse grupo de historiadores, a beatificação atende as conveniências da igreja católica.



Fontes:


Primeiros Mártires. Manso, Bruno Paes- Revista Veja. São Paulo, abril, nº 1576,- dez. 1998.
Mártires  de Cunhaú/Uruaçu agora estão recohecidos por teólogos do Vaticano
 A Verdade . Natal, nº 95-junho de 1998
Beatificação dos mártires em estudo. A Verdade Natal, nº 97- agosto de 1998.


Fotos:
          Imagens Google
              Professora Elizete Arantes-Natal-RN
              Acervo Pessoal de Arilza Pereira





domingo, 16 de outubro de 2011

UM PRATO DE SUSTANÇA! - BUCHADA DE BODE



                "Diga o que comes e dir-te- ei quem és"!

O ato de comer vai muito além da necessidade de satisfazer uma necessidade fisiológica. Os hábitos alimentares são construídos num processo fundamentalmente cultural.Cada sociedade desenvolveu hábitos peculiares de comer determinados alimentos e de prepará-los á sua maneira. A escolha dos sabores e das maneiras como cada gosto são assumidos , reforçam o sentimento de inclusão social, de pertencer à sociedade.
Assim comer é o mesmo que pertencer, ter uma identidade, assumir um lugar  social, lugar que inclui memória, história, tradição, costume".( Raul  Giovanni da Motta Lody)


                                                

A nossa buchada não é uma receita originalmente nordestina. Na verdade, ela é herança dos portugueses.Com eles aprendemos a técnica de cozinhar os miúdos dentro do estômago do animal, lá conhecida como Maranhos"."A receita nasceu em Beiras de Portugal que  tem de uma longa tradição de receitas com cabrito. A culinária nordestina adaptou-se perfeitamente a elas, com algumas diferenças.Lá por exemplo,se prefere o porco ou boi,enquanto que no Nordeste são mais frequentes o carneiro ou o bode. 
No sertão nordestino é costume servir o prato em reuniões, festas e até mesmo em batizados.

RECEITA DA BUCHADA DE BODE



INGREDIENTES
  • 6 kg de vísceras de bode ( miúdos*, tripas, bucho)
  • 1/2 xíc. sangue aferventado
  • 100 g cebola picada
  • 300 g tomate picado
  • 300 g pimentão picado
  • 3 dentes de alho
  • 10 ml vinagre
  • 50 ml limão
  • 100 g toucinho fresco
  • 1 col sopa hortelã
  •  pimenta-do-reino
  •  sal
  •  cominho
* Por miúdos entende-se: coração, rins, bofe, fígado.

  1. 1- Limpe e lave muito bem o bucho, as tripas, e os miúdos
  2. Ponha numa panela grande, cubra com água, leve ao fogo alto e deixe ferver por cerca de 5 minutos
  3. Tire do fogo e escorra; lave novamente e esfregue todos os pedaços com o sal e o suco de limão
  4. Deixe o bucho inteiro; corte o restante das carnes em pedacinhos e passe para uma tigela
  5. Pique o sangue aferventado e junte à tigela
  6. Acrescente a cebola, o alho, os tomates, os pimentões, o vinagre, pimenta-do-reino e cominho a gosto, o cheiro verde  e a hortelã e misture bem
  7. Recheie o bucho com a mistura de miúdos e temperos e costure as aberturas
  8. Ponha numa panela grande, cubra com bastante água,  junte o toucinho, leve ao fogo alto e deixe ferver
  9. Abaixe o fogo, tampe a panela e cozinhe por cerca de 5 horas, juntando mais água quente à medida que for secando
  10. Tire a buchada da panela e mantenha-a aquecida. 




                                             
O segredo da buchada está na limpeza do bode. É necessário virar as tripinhas pelo avesso com uma varinha e escaladar todos os pertences antes de cozinhar com limão ou vinagre.Tem que se ter  muita cautela e paciência na hora de limpar seus pertences para evitar o cheiro forte do animal.
Algumas dicas: Quando for costurar a buchada, deixe-a bem firme. E quando for cozinhar, não fique mexendo com utensílios pontiagudos ou que tenham superfícies laminosas para não furar a buchada
           


              Pirão para acompanhar a Buchada

       
  1. Coloque o caldo da buchada em uma outra panela.
  2. Amasse o toucinho e devolva ao caldo de cozimento.
  3. Leve ao fogo brando, verifique o tempero.
  4. Acrescente farinha de mandioca umedecida
  5. Não pare de mexer até obter a consistência desejada.




Fontes:

  • Culinária Caprina - do alto sertão à alta gastronomia"   SENAC - DN  RJ - 2005

  •  História da Gastronomia do RN - Maria Marluce Gomes-EMATER-RN
  • Receitas da Buchada e do Pirão de Dona Angelita Soares -Natal RN


Fotos: 



  • Imagens Google
  • Foto de Elielma Santos