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Barra de Punaú - por Arilza Soares

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

SHEILA RAPOSO - UMA NORDESTINA ARRETADA!

                    
                         
      "Vergonha que eu não tenho de ser nordestina"


Recebi o texto da Sheila Raposo por E-mail e pensei: um depoimento desse não pode ficar fora do "Vento Nordeste". Decidi então fazer uma postagem pra divulgá-lo, ao mesmo tempo em que  presto uma homenagem a essa nordestina arretada. Suas palavras soam como um grito contra o preconceito.Um grito que toca e emociona aqueles que amam o Nordeste.Mas é um grito poético, sem exaltação, simples e forte, como convém a todo sertanejo.
Sheila Raposo é jornalista, nascida em Monteiro no sertão do Cariri da Paraíba, e como tal descreve com maestria os costumes e as tradições culturais do seu povo, enquanto se orgulha de pertencer a esse  pedaço de chão brasileiro.Valeu Sheila! Pode ter certeza que o  nosso Nordeste também muito se orgulha de você- se orgulha e agradece.
Leiam o  que diz a Sheila no seu texto "Vergonha que eu não tenho de ser nordestina" aqui transcrito na íntegra.



"Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.                          
Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando de boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.           




Falo oxente, vôte, e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria e José! Proseio com a minha língua ligeira, que engole sílabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem que eu "saí do mato, mas o mato não saiu de mim". Não saiu mesmo! E olhe:acho que não vai sair é nunca"




Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que quando a gente termina de engolir, o suor já está pingando pelos quatro cantos. E depois me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa.



Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro das minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi  em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.





Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos do sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro do incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.




Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê   mais instrumento nesse grupo além da sanfona,  do triângulo e da zabumba? No máximo um pandeiro ou uma rabeca. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrado e os pés se queimando em brasa. Ô negocio bom!



Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do coco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.



E não existe música mais bonita para os meus ouvidos do que a tocada poe São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.




Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesmo gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas do seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os  próprios bolsos de dinheiro. 




Mas,  apesar de tudo, eu ainda sou nordestina e tenho muito orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando as vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas..."



Fonte:
             E-mail no formato PPS-
             Montagem de imagens e texto feito Inês Vieira.
Fotos
             Imagens Google
             Edição de fotos: Programa Pic-Nic - Yahoo/BR




Um comentário:

  1. Marilda Nascimento
    Arilza isso foi escrito prá mim kkkk; faz 37 anos que sai de Natal e moro em São Paulo, e o povo daqui até hj quando eu falo pensam que saí de lá há poucos dias kkkkkkk, sem querer uma coisa ou outra a gente pega do lugar que vivems mas é tão pouco que os daqui nem percebem kkkkk.. gostei dessa jornalista Sheila Raposo, como tem gente que força sotaque é uma pena rsrsrsrs
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